Lembra da vez que o senhor comprou aquele caderno do mar para mim? Eu sei que não tinha muito dinheiro, mas o senhor viu aquele brilhinho nos meus olhos; parecia que sabia o quanto eu amo o mar. Lembro ainda do dia que levou meu pai para ir pescar e implorei pra ir junto, acabei indo, eu era teimosa. Ainda sou. O senhor lembra do primeiro peixe que pesquei? Eu lembro, lembro da alegria que foi ver os dois sorrirem para mim e o senhor dizer que estava orgulhoso, eu conseguia ver nos seus olhos o mesmo brilho que eu tive quando vi aquele caderno. Fiquei orgulhosa de mim pela primeira vez e o senhor estava lá, o senhor foi um dos motivos de tamanho orgulho. Coisas pequenas marcam para sempre, não é? Lembro de todas as vezes que eu brinquei de “banho de esguicho” lá na sua casa, saía correndo e molhava todo mundo com um abraço intenso e até que forte, para a minha idade. Parece que foi ontem o dia que nossa família se reunia, viamos a vó sorrir, trazendo bolo e sorvete e a mãe brigando com ela por causa de tantos doces. Parece que foi ontem quando o senhor acordava cedo e meu irmão e eu acordávamos junto e andávamos pela cidade. Se lembra, vô? Da onde o senhor está, se lembra de todos os sorrisos? De todas as lembranças? Você me protege? Para mim você é meu anjo-da-guarda, sempre será, mas só precisava saber da única resposta a uma única pergunta, que sei que nunca terei, o senhor está orgulhoso de mim até agora? Mesmo depois de tantos erros e de tantas brigas, aquele brilho no seu olhar, continua? Você era tão cheio de vida, de saúde… O que aconteceu que, de repente, te vi naquela cama imóvel, como se tivessem te anestesiado para sempre? Foi tão difícil ver as lágrimas nos olhos da vó e da mãe, as pessoas que eu mais amo estavam chorando e eu não podia fazer nada. Me desculpa? Sim, por ter me afastado quando o senhor mais precisava, eu tinha medo; ainda tenho. A sua morte me tornou muito mais fria, não é por causa do senhor não, foi por minha causa, pois carrego a culpa de não ter ficado muito ao seu lado depois que ficou doente. Então tudo que preciso é do seu perdão, porque tudo que o senhor me ensinou, eu nunca esquecerei. E obrigada, mesmo com toda a simplicidade, obrigada por tudo que o senhor fez, andando ou não, falando ou não, nunca vou esquecer meu único vô que conheci, sei que agora está em um lugar melhor, sei que agora você não sofre mais, como sofria. Você e minha vó foram lutadores, não tenha dúvida disso, você mesmo não andando ou falando direito, continuou a sorrir e as vezes falando somente comigo quando te perguntava sobre o passado. Minha vó também, por ter sempre estado ao seu lado, até a última vez que te vi, que todos viram; por ter segurado sua mão, pagado os melhores médicos para te ajudarem e por nunca, nunca, ter desistido de você. Os dois são para mim um exemplo, um exemplo de bondade, lealdade e principalmente de amor. Está fazendo dois anos que o senhor se foi e parece que o buraco que foi cavado em mim, nunca se preencherá, não quero que se preencha. Seu lugar é único e eterno. Eu te amo vô, sempre te amarei; e mais uma vez, me desculpa, a sua garotinha nunca conseguiu ser forte o tempo inteiro, mas sempre se relembrará do seu sorriso, do seu abraço e de todas as lembranças.
~ 2 anos; a-mortized (via a-mortized)
via a-mortized (originally a-mortized)